Categoria: Artigos
Data: 22/02/2026
No centro da revelação pactual do Senhor ao seu povo está aquilo que a Escritura chama de “as palavras da aliança, as dez palavras” (Êx 34.28). O Decálogo (dez mandamentos) não é mero apêndice moral, nem simples código legislativo de Israel. Ele é a forma verbal pela qual a aliança redentiva de Deus foi comunicada ao seu povo. As palavras da aliança mostram quem Deus é e quem o seu povo deve ser diante d’Ele.
1. As “palavras do fogo”: santidade que fala
Em Deuteronômio 4.12; 4.36; 5.5; 9.10, Moisés relembra que o Senhor falou do meio do fogo. Israel não viu forma alguma, mas ouviu a voz do próprio Deus – e por isso se atemorizou. O Deus invisível revelou-se por meio de “palavras ardentes”.
O fogo aponta para a santidade absoluta de Deus, a qual não pode ser “domada” e encaixotada, mas foi condensada na sua lei. Ele ainda aponta para a pureza moral de Deus, expressa na sua lei e que deveria ser refletida no seu povo. Além disso, o fogo carrega o símbolo da presença pactual de Deus com Israel, afinal ele os conduziu pelo fogo no deserto e desceu em fogo no Sinai, vinculando-se dessa maneira ao seu povo.
Na teologia reformada, a lei moral é expressão do próprio caráter de Deus (cf. CFW 19). Portanto, quando o Senhor pronuncia as “palavras do fogo”, Ele não impõe algo estranho ao povo; Ele comunica a estrutura moral do próprio relacionamento pactual, estabelecido desde o Éden. É por isso que a aliança começa com graça de Deus, quando ele diz: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito”. A redenção precede o mandamento. Logo, a obediência é resposta, não condição para ser aceito.
2. “As dez palavras”: estrutura da vida pactual
O texto de Êxodo 34.28 chama o Decálogo de “as palavras da aliança, as dez palavras”. Isso é teologicamente decisivo. A aliança da graça atravessa toda a Escritura, e isso é muito evidente. Conforme dito anteriormente, a graça precede a lei, de modo que o Decálogo funciona como alicerce moral para o povo redimido, um princípio (ou dez) normativo, moral e ético para a conduta de todos aqueles que estão aliançados com o Senhor.
Essa estrutura – em que a lei jamais serve como regra para a redenção, mas como resposta à graça redentora – mostra que a lei não é inimiga do Evangelho, pelo contrário, ela é a sua moldura ética, conforme o Senhor Jesus ensinou em Mateus 22.37-40. As palavras da aliança ensinam o redimido a viver em comunhão com Deus (1º ao 4º mandamentos) e em comunhão com o próximo (5º ao 10º mandamentos).
3. A “lei da perfeita liberdade”
É por causa do que foi dito acima que Tiago chama a lei moral de “lei da perfeita liberdade” (Tg 1.25). Isso não é paradoxo; é teologia pactual madura e profunda. A liberdade bíblica não é autonomia (muito menos libertinagem); é libertação da escravidão do pecado para viver segundo a vontade de Deus.
É claro que as coisas espirituais se discernem espiritualmente (1Co 2.14), por isso o mundo entende a lei (qualquer lei) como opressão. No entanto, a Escritura apresenta a lei do Senhor como o caminho da comunhão com Deus e o caminho concreto do amor (a Deus e ao próximo).
Cristo cumpriu perfeitamente a lei em nosso lugar e suportou sua maldição por nós (Gl 3.13). Assim, na nova aliança, a lei não está apenas em tábuas de pedra, mas escrita no coração (Jr 31.33), para a efetivação da promessa. Note que a regeneração, portanto, não elimina o Decálogo, ela o internaliza, no mais profundo do nosso ser, para que possamos amar ao Senhor de toda a nossa força.
Aplicações
Diante disso, precisamos:
1. Recuperar a leitura reverente da lei no culto.
A leitura do Decálogo – e de toda a lei de Deus – não é formalidade litúrgica, mas renovação da identidade pactual. Talvez você não goste da leitura de textos mais graves do Antigo Testamento durante o culto, mas eles tem razão de ser. A lei fere o nosso coração e nos encaminha a Cristo.
2. Ensinar os nossos filhos na linguagem da aliança.
A lei de Deus não deve ser vista como moralismo, mas como identidade da aliança: “Somos o povo do Senhor; por isso vivemos assim”. Observe quais são as características da aliança que você não tem usufruído e coloque isso diante do Senhor em humilde súplica para que isso seja transformado. Talvez seja a guarda do dia do Senhor, talvez o respeito às autoridades, talvez seja a cobiça. Examine-se, pois, o homem a si mesmo.
3. Entender a obediência como gratidão.
O Catecismo de Heidelberg organiza a vida cristã em três partes: culpa, graça e gratidão. Em sua estrutura, esse catecismo traz a explanação do Decálogo na seção da gratidão. E é exatamente assim que deve ser na vida cristã: fomos salvos pela graça de Deus, redimidos pelo sangue do Filho e selados pelo seu Santo Espírito, portanto, devemos viver integralmente para o seu louvor, com gratidão em nosso coração.
Conclusão pastoral
As “palavras do fogo” não foram dadas para nos consumir, mas para nos formar.
“As palavras da aliança” não foram escritas para nos escravizar, mas para nos identificar.
E a “lei da perfeita liberdade” não nos prende — ela nos devolve à imagem de Deus.
Que o Senhor grave profundamente em nós as suas dez palavras, não apenas na memória, mas no coração renovado pelo Espírito. E que, como povo da aliança, vivamos de modo santo, reverente e livre — livres para obedecer, porque fomos redimidos.