O SENHOR PROVERÁ
Uma meditação pastoral em Gênesis 22.
Em Gênesis 22, sem sombra de dúvidas, somos conduzidos ao
ponto mais alto — e mais doloroso — da caminhada de Abraão com Deus. O
patriarca que recebeu promessas grandiosas e gloriosas, agora, é chamado a
entregar aquilo que parecia ser a própria garantia dessas promessas. Isaque não
é apenas um filho; ele não é um “filho qualquer”; ele é o filho da promessa,
o futuro visível da promessa de Deus. Veja, então, como Deus conduziu Abraão.
O texto começa mostrando o propósito do Senhor: “Deus provou
Abraão”. O Senhor não quer conhecer o coração de Abraão ou descobrir o que se
passar em sua mente, pois ele é capaz de sondar corações e o mais profundo de
nossa alma. Deus tem o objetivo de formar o seu servo. O Senhor irá
revelar como a sua graça moldou o coração de Abraão. A fé verdadeira é provada,
não para ser destruída, mas para florescer e ser manifestada.
Abraão sobe o monte sem explicações completas, sustentado
apenas pela fidelidade de Deus. Sua obediência não é cega; ela é profundamente
teológica. Ao dizer aos servos: “voltaremos a vós”, e a Isaque: “Deus proverá
para si o cordeiro”, Abraão confessa algo essencial: a promessa de Deus não
pode falhar, mesmo quando os meios parecem contraditórios.
Note que Abraão interpretou o mandamento à luz do caráter de
Deus, não o caráter de Deus à luz do mandamento. O apóstolo Paulo afirma, em
Romanos 4.16-22, que Abraão é o nosso pai na fé porque ele creu no Deus que “vivifica
os mortos e chama à existência as coisas que não existem”. Abraão, portanto,
considerou o caráter do Deus que criou todas as coisas a partir do nada e do Deus
trouxe vida do seu corpo amortecido e do ventre morto (estéril) de sua esposa
Sara.
No momento decisivo, quando a faca é erguida, o céu
intervém. O Senhor não aceita sacrifício humano. Ele interrompe, chama Abraão
pelo nome e revela o princípio que ecoará por toda a Escritura: a provisão
vem de Deus, e ela vem no lugar do pecador. O carneiro preso pelos chifres
não é um detalhe narrativo; é um sinal redentivo. Deus não apenas impede a
morte de Isaque — Ele assume a responsabilidade de prover o que Ele mesmo
exige.
Abraão então nomeia aquele lugar: YHWH-Jiré — “O
SENHOR proverá”. Esse nome não nasce em meio a abundância de bens de Abraão,
mas do pequeno fio da promessa, provido e sustentado pelo Senhor. Na teologia
reformada, a provisão divina não significa ausência de dor, mas certeza de
fidelidade da parte de Deus à sua palavra. Deus não prometeu poupar Abraão da
prova; prometeu sustentá-lo nela.
Esse momento da vida do patriarca nos ensina que a fé madura
não exige explicações antecipadas, não faz barganhas e ajustes humanos, mas
confia no Deus que já falou (observe também o início e o final da vida de Jó).
O Senhor frequentemente nos conduz por caminhos em que nossas seguranças são
expostas, não para nos fazer cair, mas para nos ensinar que a promessa nunca
depende do que está em nossas mãos.
É muito claro que Gênesis 22 aponta além de si mesmo, e esse
é o ponto mais importante do texto. Isaque carrega a lenha, assim como Cristo
carregará a cruz. No monte Moriá, Deus poupou o filho de Abraão; no Calvário,
Ele não poupou o Seu próprio Filho. A provisão final não foi um cordeiro
preso pelos chifres, mas o Cordeiro de Deus entregue por nós. Ali, o “O Senhor
proverá” alcança sua plenitude.
Portanto, quando a igreja confessa que o Senhor proverá, ela
não está afirmando que sempre compreenderá o caminho, mas que sempre pode
confiar no Deus que caminha com o seu povo. A provisão divina é, antes de tudo,
Cristo dado por nós e a nós, e, por causa dEle, tudo o que realmente
precisamos jamais nos faltará. Permaneçamos firmes em suas promessas.